O Peru, que tem o segundo crédito rotativo mais caro, cobra 55% ao ano, uma diferença de quase 270%
Mesmo com a queda da taxa básica de juros da economia (Selic) - hoje de 8% ao ano - o consumidor brasileiro continua pagando, de longe, as maiores taxas da América Latina de juros no financiamento da dívida no cartão de crédito, o chamado rotativo. É o que mostra um levantamento divulgado nesta terça (16) pela Proteste Associação de Consumidores, que pesquisou as taxas praticadas em sete países, incluindo as maiores economias da região.
O brasileiro que recorre ao rotativo, ou seja, paga apenas uma parte da fatura do cartão e deixa a dívida rolar para o mês seguinte, paga taxa média de juro anual de 323,14% no país (o equivalente a 12,77% ao mês). O Peru, que tem o segundo crédito rotativo mais caro, cobra 55% ao ano, uma diferença de quase 270%. O terceiro colocado foi o Chile, com a taxa anual de 54,24%. O menor percentual é da Colômbia, com 29,23%.
“A Proteste (...) comprovou que o consumidor brasileiro continua submetido a taxas exorbitantes, apesar da queda da taxa básica de juros da economia, a Selic”, considerou o estudo.
A pesquisa levou em consideração as diferenças macroeconômicas entre os países, como as taxas de juros básicas de cada economia, assim como a inflação. Segundo o estudo, mesmo tendo a taxa básica mais alta da região, a distância entre o Brasil e os outros países é exagerada.
No país, os números foram calculados com base nos valores cobrados pelos cartões dos seguintes bancos e financeiras: Itaú, Bradesco, Santander, HSBC, Banco IBI, Banrisul, Caixa Econômica, Citibank, Losango, Panamericano, Banco do Brasil, Banco BMG e BV Financeira.
“Os juros cobrados nas modalidades do crédito rotativo estão entre as causas do crescente endividamento dos brasileiros”, concluiu a pesquisa. “As instituições financeiras argumentam que houve um aumento da inadimplência, mas isso não se justifica, porque os juros das operações de crédito deveriam acompanhar a taxa Selic”, considerou a coordenadora institucional da Proteste, Maria Inês Dolci.
Vale ressaltar que a única operação de crédito que não tem baixado os juros, junto com a economia, é o cartão. Segundo pesquisa, a taxa média mensal se mantém em 10,7 desde junho de 2000.
Para o vice-presidente da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, isso ocorre por conta de um “ciclo vicioso” da economia entre inadimplência e juros altos. “Uma coisa alimenta outra, aí fica naquela história: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?”.
Ele aponta a existência de poucas financeiras que operam com cartão de crédito, o que contribui para a prática de taxas abusivas. “Há uma concentração de mercado muito forte no setor financeiro”.
Mínimo
Histórias de quem não soube usar bem o cartão de crédito mostram que a briga entre cartão e consumidor compulsivo tem um vilão: o pagamento mínimo. O estudante Fernando Cruz, de 22 anos, acabou comprometendo o orçamento familiar ao usar o cartão de maneira desenfreada. “Eu usava muito o cartão, meu pai pagava sempre o pagamento mínimo e virou uma bola de neve”, lembrou.
Histórias de quem não soube usar bem o cartão de crédito mostram que a briga entre cartão e consumidor compulsivo tem um vilão: o pagamento mínimo. O estudante Fernando Cruz, de 22 anos, acabou comprometendo o orçamento familiar ao usar o cartão de maneira desenfreada. “Eu usava muito o cartão, meu pai pagava sempre o pagamento mínimo e virou uma bola de neve”, lembrou.
Quanto o cliente opta pelo pagamento mínimo, os juros do rotativo incidem sobre o valor restante. Quem recebe uma conta de R$ 1 mil, por exemplo, e paga apenas R$ 200, pagará R$ 96 a mais no mês seguinte, se a taxa do cartão for de 12% ao mês. “Ao usar o cartão de crédito, você não vê o dinheiro indo embora. Aí cria aquela ilusão gostosa de que você pode comprar tudo”, ironiza Cruz.
Segundo recomendação da Proteste, quem não pode pagar a fatura do cartão deve optar pelo parcelamento da conta. “Em geral, os juros são um pouco menores do que caso você entre no crédito rotativo ou não pague nada”, orienta a cartilha da associação.
Quem entrar no rotativo deve pagar o máximo possível do valor total da fatura e agendar, com o banco, o parcelamento do montante que restar. “Mas esta dica só vale caso você não tenha acesso a outros empréstimos, como pessoal ou consignado, que têm taxas menores”, destaca a instituição.
A coordenadora da Proteste lembra que cartão não é salário. “O cartão de crédito não deve ser considerado um ‘plus’ da renda e as compras só podem comprometer até 30% do salário”. Outro estudante que já se endividou com o cartão, Vinícius Dantas, 20 anos, fala da lição que aprendeu: “Exagerei num cartão, reduziram meu crédito e eu fiz outros cartões, o que só piorou. Vi que só é preciso ter um cartão, pois excesso de crédito gera débitos em excesso”.
Taxas de Juros
Brasil: 323,1%
Peru: 55%
Chile: 54,2%
Argentina: 50%
México: 33.8%
Venezuela: 33%
Colômbia: 29,2%
Brasil: 323,1%
Peru: 55%
Chile: 54,2%
Argentina: 50%
México: 33.8%
Venezuela: 33%
Colômbia: 29,2%

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